Ideia é dar sustentabilidade à cadeia de produção no fase pós uso do café; produtos são vendidos na internet e em lojas

O café perdeu o status de principal produto da agricultura brasileira, mas ganhou o status de joia na criação da designer Ana Paula Naccarato. Formada na FAAP de Ribeirão Preto (SP), cidade que teve o apelido de capital mundial do café até a crise de 1929, Ana Paula foi às cafeterias buscar os resíduos da produção para criar acessórios chamados de biojoias e objetos de decoração que estão à venda pela internet e em algumas lojas físicas de Ribeirão, Campinas, Rio de Janeiro e mais recentemente em São Paulo capital.

Resíduo vira brincos, colares, pulseiras, bandejas, relógios, vasos, luminárias e até revestimento de parede (Foto: Divulgação)

O uso da borra do café para criar as semijoias foi projeto de conclusão de curso da designer em 2017, que logo depois foi convidada para expor as peças originais em um concurso de jovens talentos na Inglaterra. Após ter o trabalho selecionado no exterior, ela entrou com pedido de patente da ideia no Brasil e se juntou ao administrador Rafael Guimarães (que hoje já não está no negócio) e ao biólogo Sérgio Camargo na criação da startup Recoffee.

ReCoffee Design
A designer Ana Paula Naccarato, idealizadora da ReCoffee Design, com Rafael Guimarães (que hoje já não está no negócio) e ao biólogo Sérgio Camargo

“Percebemos uma oportunidade de inovação, trazendo sustentabilidade na cadeia produtiva do café na fase pós-uso. Já há boas práticas na cadeia do café margeando o tema de sustentabilidade como a produção orgânica e a proteção dos pequenos produtores e trabalhadores. Agora, depois do uso, só tínhamos iniciativas de reciclagem de embalagens”, diz Sérgio.

A cada semana, eles coletam cerca de 15 kg de borra de café em cafeterias de Ribeirão. O material recebe a adição de resinas vegetais no ateliê de produção e se torna um composto que depois de 24 horas é moldado para se tornar brincos, colares, pulseiras, bandejas, relógios, vasos, luminárias e até revestimento de parede. Todo o processo é a frio, sem uso de energia.

No total, o ateliê fabrica mais de 50 modelos de peças, todas feitas artesanalmente. O carro-chefe são os relógios de parede. Segundo Sergio, o produto pode ter contato com água, é extremamente durável e, quando descartado, não agride ao meio ambiente. O investimento inicial dos sócios foi de R$ 140 mil e toda a receita é reaplicada na empresa. A startup busca, no entanto, financiadores para escalar a produção e prospectar novos parceiros.

A Recoffee tem parceria com o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para desenvolvimento da tecnologia e está testando resíduos de outras indústrias como a de tecidos jeans para a criação de objetos de design.Questionado por que a escolha da borra do café, já que há tantos outros resíduos de bebidas e alimentos, o biólogo afirmou que o café é consumido em um momento de pausa, de reflexão, além de ser a segunda bebida mais consumida no mundo, só perdendo para a água.

“Além disso, a matéria-prima é gratuita”, diz, acrescentando que muitas cafeterias do Rio de Janeiro se ofereceram para fornecer a borra visando agregar a marca de sustentabilidade a seus negócios. “Não aceitamos porque nosso laboratório fica em Ribeirão e não seria sustentável fazer o transporte dos resíduos.”

E não vai faltar matéria-prima. O Brasil é o segundo maior consumidor mundial de café, atrás apenas dos Estados Unidos. Consumiu 21 milhões de sacas de novembro de 2017 a outubro de 2018, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). O aumento em relação ao período anterior foi de 4,8%. O produto registrou alta também nas exportações: 35,2 milhões de sacas ou 14% a mais que em 2017.

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